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SERÁ VOTADO HOJE (24/08/26) NA CÂMARA
Projeto prevê transformar cerca de 8,5 milhões de metros quadrados de área rural em área urbana isolada - Nas proximidades do Aeroporto Santana
Clayton Ribeiro

Bairro planejado próximo ao Aeroporto Sant’Ana divide Conselho da Cidade em Ponta Grossa
Projeto prevê transformar cerca de 8,5 milhões de metros quadrados de área rural em área urbana isolada, com previsão de bairro para até 70 mil moradores; conselheiros contrários apontaram problemas de mobilidade, expansão urbana, ruído aeroportuário e custos para o Município
O que está em discussão
O Projeto de Lei nº 399/2025, encaminhado pela Prefeitura de Ponta Grossa à Câmara Municipal, propõe a inclusão de seis imóveis, incluindo uma parte ideal de outra matrícula, no perímetro urbano do município. A proposta prevê que as áreas sejam classificadas como “Área Urbana Isolada” e enquadradas, para fins de zoneamento, como Zona Mista 2 (ZM2).
Segundo a documentação que acompanha o projeto, a área total é de aproximadamente 8,5 milhões de metros quadrados. A mudança é defendida pelos proprietários e empreendedores como necessária para viabilizar a implantação de um bairro planejado e sustentável, com usos residenciais, comerciais, de serviços e industriais de baixo impacto.
A proposta está relacionada ao Processo nº 34.494/2020 e foi discutida pelo Conselho Municipal da Cidade e em audiência pública promovida pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Ponta Grossa (IPLAN).
Onde ficam os imóveis
A documentação permite localizar a área com relativa precisão.
Os imóveis estão na região próxima ao Aeroporto Sant’Ana – Comandante Antônio Amilton Beraldo, às margens da PR-151, no sentido Ponta Grossa–Palmeira. O croqui apresentado no processo indica que a entrada da área pretendida fica aproximadamente 400 metros do atual perímetro urbano.
A área está próxima ao acesso para Guaragi e ao Rio Tibagi, tendo como referências a PR-151, o Aeroporto Sant’Ana e a região do bairro Cará-Cará. O mapa também indica a proximidade com a BR-376 e a ligação com Palmeira.
Os documentos destacam ainda que a região está próxima de obras e investimentos considerados estratégicos pelos empreendedores, como a duplicação da PR-151, a ampliação do aeroporto, o viaduto Tetra Pak/Heineken e projetos relacionados à infraestrutura de saneamento e à expansão industrial.
O que os empreendedores defendem
Os proprietários dos imóveis e os empreendedores sustentam que a região teria características adequadas para uma expansão urbana planejada.
A proposta prevê um bairro com parques, lagos, áreas verdes, vias arborizadas, ciclovias, espaços de lazer, equipamentos públicos e diferentes usos urbanos. Entre as soluções apresentadas estão sistemas de energia renovável, reutilização de água, iluminação eficiente, coleta seletiva, conectividade gratuita em espaços públicos e sistemas tecnológicos de segurança.
Outro argumento apresentado é que a implantação ocorreria de maneira independente dos bairros já existentes, com infraestrutura própria e acesso pela PR-151.
O empreendimento também é apresentado como uma oportunidade de geração de empregos, arrecadação tributária e atração de investimentos privados. Segundo a documentação, o investimento poderá superar R$ 1,25 bilhão.
O projeto não seria concebido apenas como um loteamento residencial. A intenção declarada é criar uma espécie de núcleo urbano autossuficiente, reunindo moradia, comércio, serviços, saúde, educação, lazer e atividades empresariais.
Por que houve oposição no Conselho da Cidade
Apesar dos argumentos favoráveis, a proposta encontrou resistência entre os integrantes do Conselho Municipal da Cidade.
A principal crítica não foi direcionada necessariamente à qualidade do projeto urbanístico, mas à escolha da área para sua implantação.
Durante a reunião do Conselho, representantes do IPLAN destacaram que o Plano Diretor de 2022 prioriza uma cidade mais compacta, com aproveitamento dos vazios urbanos existentes, e não uma expansão horizontal baseada na abertura de novas áreas urbanizadas.
Na avaliação apresentada, o crescimento horizontal tende a aumentar as distâncias entre moradia, emprego e serviços, além de elevar os custos de implantação e manutenção da infraestrutura pública.
Os críticos também apontaram que Ponta Grossa já possui quantidade significativa de áreas vazias dentro do perímetro urbano. Por isso, questionaram a necessidade de levar a expansão para uma região ainda não integrada à malha urbana.
Mobilidade foi um dos principais pontos de preocupação
Outro argumento contrário esteve relacionado ao sistema viário.
Segundo a ata da reunião, o acesso ao empreendimento seria concentrado na PR-151. Conselheiros questionaram se a rodovia e a estrutura viária existente teriam capacidade para absorver o movimento gerado por um bairro que poderá alcançar dezenas de milhares de moradores.
Foi apontado ainda que, embora o projeto preveja uma avenida interna de grande capacidade, o problema estaria justamente na conexão dessa estrutura com o sistema viário existente.
A preocupação manifestada foi de que uma nova concentração populacional poderia gerar aumento significativo do tráfego em uma região que atualmente não dispõe de uma malha urbana consolidada semelhante à encontrada nas áreas mais ocupadas da cidade.
Proximidade com o aeroporto também gerou questionamentos
A localização próxima ao Aeroporto Sant’Ana foi outro ponto de preocupação.
Durante a discussão, conselheiros questionaram os impactos decorrentes do ruído das aeronaves sobre uma futura população residente na região.
Foi destacado que as trajetórias de pouso e decolagem poderiam passar sobre ou próximas da área do empreendimento e que as aeronaves, especialmente durante a aproximação para pouso, estariam em baixa altitude, provocando níveis significativos de ruído.
Um dos conselheiros também observou que o empreendimento está aproximadamente 2,5 quilômetros do eixo da pista de pouso, embora localizado lateralmente à área de operação aeroportuária.
A proximidade com áreas industriais também foi levantada como possível fator de impacto para futuros moradores.
“O problema não está no empreendimento, mas na área escolhida”
Uma das manifestações mais relevantes partiu da própria equipe técnica do IPLAN.
A arquiteta Karla Volaco Gonzalez Stamouls esclareceu que a posição apresentada pelo instituto não deveria ser interpretada como uma oposição ao conceito de bairro planejado.
Segundo o registro da reunião, a avaliação era de que o empreendimento poderia ser implantado, mas seria mais adequado que estivesse localizado em uma área já inserida no perímetro urbano, preservando suas características de planejamento e sustentabilidade.
A síntese apresentada foi justamente de que o problema não estaria no empreendimento em si, mas na área escolhida para sua implantação.
Conselheiros também questionaram possíveis custos para o Município
Outro ponto levantado pelos contrários foi a responsabilidade pela infraestrutura necessária para atender a uma nova população.
Foram citadas necessidades relacionadas a transporte público, sistema viário, escolas, unidades de saúde e demais equipamentos urbanos.
A crítica apresentada foi de que, mesmo com investimentos privados iniciais, a criação de um novo núcleo urbano poderia produzir obrigações permanentes para o poder público.
Houve, inclusive, divergência sobre as chamadas contrapartidas do empreendimento. Enquanto os defensores apontavam parques, equipamentos e infraestrutura como benefícios para a cidade, um dos conselheiros argumentou que algumas dessas estruturas poderiam representar, no futuro, passivos e custos de manutenção para o Município.
Bairro poderá chegar a 70 mil moradores
Na audiência pública realizada pelo IPLAN em julho de 2025, representantes do empreendimento apresentaram uma perspectiva de ocupação de longo prazo.
A estimativa informada foi de que, nos primeiros 30 anos, a população do novo bairro poderia ficar entre 35 mil e 40 mil habitantes.
Com a consolidação completa do projeto, prevista em um horizonte de 50 a 70 anos, a população poderia chegar a aproximadamente 70 mil pessoas.
Para enfrentar a preocupação com o transporte coletivo, os empreendedores informaram que estudam aportar recursos para viabilizar as linhas de ônibus nos primeiros anos de funcionamento, até que o sistema alcance equilíbrio financeiro. O período inicialmente mencionado seria de 10 a 15 anos.
Votação terminou com divisão entre os conselheiros
Na reunião do Conselho Municipal da Cidade, a inclusão da área no perímetro urbano recebeu oito votos favoráveis e sete contrários.
Votaram contra a inclusão Renato Manfredini, Gabriel Dib, Bernardo Fonseca, Michel Haddad Neto, Bruno Krubnik, Gerveson Tramontin e Luz Henrique Honesko.
Foram favoráveis Gabriel Stallbaum, Sérgio Doszanet, Ali Ataya, Lúcio Rogoski, Ricardo Pimenta, Rodolfo Garbelini, Priscila Gaberlini e João Horst.
O resultado, entretanto, possui caráter consultivo. A própria ata registra que o Conselho da Cidade não tem caráter deliberativo e que a votação corresponde a um parecer para subsidiar as etapas posteriores de discussão.
O que está em jogo
O projeto coloca em discussão dois modelos diferentes de expansão urbana para Ponta Grossa.
De um lado, os empreendedores defendem a possibilidade de criar um novo núcleo urbano planejado, com grande investimento privado, infraestrutura própria, áreas verdes, geração de empregos e diversificação dos usos do solo.
De outro, os conselheiros contrários alertam que a abertura de uma nova frente de urbanização pode contrariar a lógica de cidade compacta estabelecida pelo Plano Diretor, ampliar os deslocamentos, aumentar a dependência do automóvel e criar novas demandas permanentes por infraestrutura e serviços públicos.
A discussão, portanto, não se limita à transformação de uma área rural em urbana. Envolve também a definição de como Ponta Grossa pretende crescer nas próximas décadas: ocupando os vazios existentes dentro do perímetro urbano ou permitindo a formação de novos núcleos urbanos planejados em áreas atualmente isoladas da malha urbana.
Fontes oficiais
- 2 · Inteiro teorCâmara Municipal de Ponta Grossa
Documento oficial —
A numeração indica a hierarquia de confiabilidade adotada pela redação: 1 Diário Oficial · 2 inteiro teor · 3 acórdão · 4 comunicado oficial · 5 assessoria de imprensa. Texto redigido de forma original a partir dos documentos citados, sem reprodução de trechos protegidos.
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